segunda-feira, 14 de maio de 2012

Grafite


Fui forçado a mudar meu trajeto do trabalho para casa. Não tive escolha. Fui transferido para outro setor, no Juvevê, e logo em seguida meu antigo setor também foi transferido para outro prédio, no Centro. A Mariano Torres passou a ser uma via infrequente para mim.
Antes, passava pelo trecho entre as imediações da Rodoferroviária e o Passeio Público duas vezes por dia, praticamente todos os dias. Sempre pela pista da esquerda. Meu “caminho da roça”!
Na quadra entre as ruas Comendador Macedo e Benjamim Constant, até o ano de 2007, havia um grafite que me chamava a atenção. Era a figura de um jovem com as mãos nos bolsos que indagava: “Você se enche de várias coisas e ainda continua vazio?”
Todas as vezes que passava por ali, o grafite me chamava e pedia: “Ei, fotografe-me”. Parece que o jovem personagem já conhecia as intenções do seu criador. Eu não costumo carregar a câmera no carro e meu celular era bem limitado em matéria fotográfica. Demorou, mas num dia de 2007 aconteceu de eu estar com a câmera no carro e parar em frente ao grafite: clique!
Continuei a passar por lá e a dialogar com aquele jovem, ainda por algum tempo, alguns meses... A cada vez, tentava uma resposta, mas ele mantinha as mãos nos bolsos e a pergunta que ressoava, simples e direta! Às vezes, insistia numa resposta já tentada, e o resultado se repetia. Houve dias em que agradeci pelo trânsito estar fluindo a ponto de não dar tempo de nada além de um “olá!”, e outros em que amaldiçoei a lentidão que me obrigava a encarar aquele personagem que ficara já meu amigo e a enfrentar sua pergunta.
Até que um dia, em 2008, não encontrei meu amigo no ponto habitual. Em seu lugar, havia outro personagem, de outro grafite... Ao invés da pergunta que animou minha amizade anterior, havia uma resposta... pretensiosa, que não cabia nas minhas indagações. Não simpatizei com o novo personagem, que também já foi substituído, e nem com seu substituto, pois este também quis me impor uma resposta, ainda que indireta, sem saber das minhas indagações. Não fico amigo de gente assim!
Por isso não me importei em ter que mudar de trajeto quando fui transferido, no ano passado. O indagador era meu único amigo naquele trecho, com suas mãos nos bolsos e sua pergunta. Faz tempo, já.


3 comentários:

  1. Muito bom! Adorei a foto e o amigo também : )

    ResponderExcluir
  2. Adorei!
    A pergunta do seu "amigo" nos faz pensar...e muito! Acredito que eu não esteja vazia e sim cheia demais..... o que me faz transbordar emoções que não consigo controlar. Não sei se são as emoções certas, mas elas estão em mim e às vezes tenho medo.
    Até.
    Denise Dalledone

    ResponderExcluir
  3. Sensacional! Confesso que também conheci este grafite e também dialoguei algumas vezes com ele. Faz tempo que não passo por lá e não sabia que já tinha partido. Sinto pela sua ausência pois certamente ele levava muitos à reflexão.
    Abraço.

    ResponderExcluir

Seu comentário eu aceito,
mas a "responsa" é só sua,
sendo correto e bem feito,
ponha o seu bloco na rua!