quarta-feira, 3 de março de 2021

Volta à normalidade

 Nem tudo está condenado às tristes consequências da pandemia de COVID-19. Embora o principal responsável pelo descaso que está resultando na maior tragédia sanitária dos últimos tempos continue livremente boicotando o combate à transmissão do novo coronavírus e, com isso, fazendo com que o contágio se alastre e crie o caos na saúde pública, levando milhares de brasileiros para a cova, algumas coisas têm outro destino.

A última fala do imbecil foi uma acusação de que a imprensa criou artificialmente um estado de pânico na população. Chega a ser surreal. Será que ele se dá tanta importância assim para delirar a ponto de imaginar uma conspiração mundial contra o seu (des)governo? Um conluio da imprensa de todo o mundo para fazer a população acreditar em uma doença que, apesar de matar a rodo, não existe? E para derrubá-lo?

O cara se acha!

Mas, em meio a esta insanidade (em todos os sentidos), algumas coisas estão voltando ao normal. Talvez até nem tenham sido afetadas.

O melhor exemplo é a impunidade de corruptos poderosos.

Sim, o combate à corrupção não passou de um soluço. O movimento que parecia ser para valer foi contaminado pela mesma doença que serve de adubo à corrupção. Seus integrantes caíram enfermos. E há quem afirme que seu estado é terminal. É o que me parece também.

Evidentemente, os trapaceiros que posaram de partidários do combate à corrupção já perceberam isto e, como ratos, abandonam o barco rapidamente.

E, enquanto o país segue rachando, provas são anuladas, ritos sofisticados têm prevalência sobre a simples verdade, processos são arquivados, a jurisprudência é posta em contradição, órgãos de investigação são contidos e novas leis são gestadas para a proteção deste estado normal de coisas.

É o que se vê nas principais manchetes. A pandemia corre solta, assim como a corrupção. E seus responsáveis.

Confesso que já tive coceira para acreditar que haveria, de fato, uma conspiração. Mas não a defendida pelo imbecil. Outra. Uma conspiração que explicasse a pandemia e o alargamento da corrupção (e sua impunidade) estarem acontecendo ao mesmo tempo. Assim: a primeira serve intencionalmente para tirar a atenção da segunda. Mas resisti heroicamente. É óbvio que não se trata disto. O que está havendo é apenas uma coincidência. Afinal, coincidências também são coisas normais.

domingo, 10 de janeiro de 2021

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Os números que ainda não foram meus

Todos os números no intervalo de 0 a 59 já me pertenceram. O 59 ainda me pertence. Fora isso, não houve outra sequência. Não que eu saiba.

O número que me despertou para a importância que os algarismos combinados (ou não) teriam na minha vida, foi o 0186. Era o número do primeiro relógio que tive, presente do meu pai. Sei muito bem de um conceito matemático que afirma que os zeros à esquerda não têm valor. Mas é falso, simplesmente falso. Não o fosse, o primeiro número importante que me pertenceu seria apenas 186, e não 0186. E, não o fosse, um conhecido personagem tragicômico não chamaria seus filhos de zeros xis (e, neste caso, realmente representam valor).

Mas há números mais importantes.

O meu primeiro salário foi 6.285 de uma moeda que já não existe. A placa do meu primeiro carro foi 1290, com duas letras das quais não me recordo. O número do primeiro telefone que tivemos em casa foi 24-0599. O ano da minha formatura foi 1982. E o do meu nascimento foi 1961. Já dava para suspeitar, não é mesmo?

Quando viemos morar em Curitiba, nosso apartamento ficava no 1º andar do número 1.152 de uma rua central. O número da minha carteira de identidade é pouco menor que 2 milhões. O do meu CPF termina com o algarismo 9 e tem o controle 72. A minha matrícula no trabalho era 103, mas passou a ser o meu RG.

Calço 40, mas alguns dos meus calçados são 39 ou 41, dependendo da forma. Visto camisas número 2, mas algumas são 3. Até há pouco tempo, minhas calças eram 38, mas agora são 40 e também admitem alguma variação. Uso óculos com lentes de graus diferentes, uma de 5º e outra de 6º.

Meu celular tem um número que não vou citar aqui, por motivos óbvios.

Tenho 2 filhos, e não os chamo por números. E tenho 1 amor em construção.

Já votei nos números 12, 13, 18, 21, 23, 43, 45, 50, 65. E mesmo não tendo votado no 17, já levei alguns 171 na testa. (Parece inevitável!) Para este ano, estou entre o 12 e o 50.

Já fui enganado inúmeras vezes e ainda o serei outras tantas.

Os números relacionados à corrupção não param de crescer. E, assim como o número de cúmplices, é impossível citá-los com precisão.

O número de hectares queimados sobe que nem fumaça.

Os números da inflação não são críveis. Já os do boletim FOCUS parecem revelar que a realidade não está prevista.

Em 2020, o IBGE não saberá de todos os números.

A data de hoje é representada pelo número 44.117 em planilhas eletrônicas. E estamos em quarentena há 210 dias.

O número 2 do Ministério da Saúde (disseram que foi promovido para número 1, mas não há provas disso) tentou ocultar diversos números. Eles são conhecidos como subestimados.

Ah, sim, os de hoje são 309 e 150.998. Felizmente não pertenço a eles.


quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Pandemônio em marcha

(no último final de semana foram registradas - oficialmente - 
mais de 100.000 mortes por COVID-19 no Brasil)

 A marcha do vírus.
Em desordem desunida,
os seus combatentes.

      -*-

Meio assintomático,
o país anda dopado
e sem reação.

      -*-

Chamam de histeria
essas recomendações.
Os insatisfeitos...

      -*-

UTI lotada.
Agora já se distingue
o grupo de risco?

      -*-

Os olhos vendados,
mas parece mascarado.
O trapo mofado.

      -*-

Crânio devoluto.
Aumento o distanciamento
e já nem discuto.

      -*-

Que situação!
O mico da cloroquina,
as emas não querem.

      -*-

A pressão é grande!
O comércio vai vender
o pânico a alguém?

      -*-

Não falta a ciência,
apenas a consciência.
E apenas nos outros.

      -*-

Máscara no queixo.
Mas não sabe lutar boxe
o maldito vírus!

      -*-

E esta pandemia!
Apesar do pandemônio,
ainda se ri...

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Não-ciência

Não se trata de um ensaio
nem artigo, tese ou banca

Só dizer
de malandragem

O corolário do tosco
chega expresso na tosquia

terça-feira, 19 de maio de 2020

E daí? (ou Lavando as mãos no pandemônio)

(hoje foram registradas mais de 1000 mortes
 num dia por COVID-19 no Brasil)

E daí?
Que falta faz a tua vida,
já que existe um "escolhido"?
E daí?
Que falta faz tua família,
já que a dele é protegida?
E daí?
Que falta faz algum amigo,
se ele nem é teu amigo?
E daí?
Que falta faz quem não conheces,
se ele lá não te conhece?
E daí?
Que falta faz algum bom senso,
já que o teu não vale nada?
E daí?
Que falta faz a coerência,
se isso é tua opinião?
E daí?
Que falta faz a confiança,
já que os gritos te amedrontam?
E daí?
Que falta faz o isolamento,
se ele está mais que isolado?
E daí?
Que falta faz a inteligência,
já que nem queres saber?
E daí?
Que falta faz uma UTI,
se teu leito te aconchega?
E daí?
Que falta faz que ele governe,
já que tu não cobras nada?
E daí?
Que falta faz um estadista?

sexta-feira, 15 de maio de 2020

sexta-feira, 1 de maio de 2020