domingo, 10 de janeiro de 2021

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Os números que ainda não foram meus

Todos os números no intervalo de 0 a 59 já me pertenceram. O 59 ainda me pertence. Fora isso, não houve outra sequência. Não que eu saiba.

O número que me despertou para a importância que os algarismos combinados (ou não) teriam na minha vida, foi o 0186. Era o número do primeiro relógio que tive, presente do meu pai. Sei muito bem de um conceito matemático que afirma que os zeros à esquerda não têm valor. Mas é falso, simplesmente falso. Não o fosse, o primeiro número importante que me pertenceu seria apenas 186, e não 0186. E, não o fosse, um conhecido personagem tragicômico não chamaria seus filhos de zeros xis (e, neste caso, realmente representam valor).

Mas há números mais importantes.

O meu primeiro salário foi 6.285 de uma moeda que já não existe. A placa do meu primeiro carro foi 1290, com duas letras das quais não me recordo. O número do primeiro telefone que tivemos em casa foi 24-0599. O ano da minha formatura foi 1982. E o do meu nascimento foi 1961. Já dava para suspeitar, não é mesmo?

Quando viemos morar em Curitiba, nosso apartamento ficava no 1º andar do número 1.152 de uma rua central. O número da minha carteira de identidade é pouco menor que 2 milhões. O do meu CPF termina com o algarismo 9 e tem o controle 72. A minha matrícula no trabalho era 103, mas passou a ser o meu RG.

Calço 40, mas alguns dos meus calçados são 39 ou 41, dependendo da forma. Visto camisas número 2, mas algumas são 3. Até há pouco tempo, minhas calças eram 38, mas agora são 40 e também admitem alguma variação. Uso óculos com lentes de graus diferentes, uma de 5º e outra de 6º.

Meu celular tem um número que não vou citar aqui, por motivos óbvios.

Tenho 2 filhos, e não os chamo por números. E tenho 1 amor em construção.

Já votei nos números 12, 13, 18, 21, 23, 43, 45, 50, 65. E mesmo não tendo votado no 17, já levei alguns 171 na testa. (Parece inevitável!) Para este ano, estou entre o 12 e o 50.

Já fui enganado inúmeras vezes e ainda o serei outras tantas.

Os números relacionados à corrupção não param de crescer. E, assim como o número de cúmplices, é impossível citá-los com precisão.

O número de hectares queimados sobe que nem fumaça.

Os números da inflação não são críveis. Já os do boletim FOCUS parecem revelar que a realidade não está prevista.

Em 2020, o IBGE não saberá de todos os números.

A data de hoje é representada pelo número 44.117 em planilhas eletrônicas. E estamos em quarentena há 210 dias.

O número 2 do Ministério da Saúde (disseram que foi promovido para número 1, mas não há provas disso) tentou ocultar diversos números. Eles são conhecidos como subestimados.

Ah, sim, os de hoje são 309 e 150.998. Felizmente não pertenço a eles.


quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Pandemônio em marcha

(no último final de semana foram registradas - oficialmente - 
mais de 100.000 mortes por COVID-19 no Brasil)

 A marcha do vírus.
Em desordem desunida,
os seus combatentes.

      -*-

Meio assintomático,
o país anda dopado
e sem reação.

      -*-

Chamam de histeria
essas recomendações.
Os insatisfeitos...

      -*-

UTI lotada.
Agora já se distingue
o grupo de risco?

      -*-

Os olhos vendados,
mas parece mascarado.
O trapo mofado.

      -*-

Crânio devoluto.
Aumento o distanciamento
e já nem discuto.

      -*-

Que situação!
O mico da cloroquina,
as emas não querem.

      -*-

A pressão é grande!
O comércio vai vender
o pânico a alguém?

      -*-

Não falta a ciência,
apenas a consciência.
E apenas nos outros.

      -*-

Máscara no queixo.
Mas não sabe lutar boxe
o maldito vírus!

      -*-

E esta pandemia!
Apesar do pandemônio,
ainda se ri...

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Não-ciência

Não se trata de um ensaio
nem artigo, tese ou banca

Só dizer
de malandragem

O corolário do tosco
chega expresso na tosquia

terça-feira, 19 de maio de 2020

E daí? (ou Lavando as mãos no pandemônio)

(hoje foram registradas mais de 1000 mortes
 num dia por COVID-19 no Brasil)

E daí?
Que falta faz a tua vida,
já que existe um "escolhido"?
E daí?
Que falta faz tua família,
já que a dele é protegida?
E daí?
Que falta faz algum amigo,
se ele nem é teu amigo?
E daí?
Que falta faz quem não conheces,
se ele lá não te conhece?
E daí?
Que falta faz algum bom senso,
já que o teu não vale nada?
E daí?
Que falta faz a coerência,
se isso é tua opinião?
E daí?
Que falta faz a confiança,
já que os gritos te amedrontam?
E daí?
Que falta faz o isolamento,
se ele está mais que isolado?
E daí?
Que falta faz a inteligência,
já que nem queres saber?
E daí?
Que falta faz uma UTI,
se teu leito te aconchega?
E daí?
Que falta faz que ele governe,
já que tu não cobras nada?
E daí?
Que falta faz um estadista?

sexta-feira, 15 de maio de 2020

sexta-feira, 1 de maio de 2020

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Um dia de quarentena

Viro pra lá
viro pra cá
mas nada vejo
A calma aparente
à luz do fim do dia

Entretanto
a sensação de vigilância
está nas ruas

Há poucos carros
pouca gente
pouca vida
Há muitas portas bem fechadas
E janelas sem ninguém
também trancadas
e cerradas com cortinas

A cidade
e sua estranha dimensão
atemporal

Dirijo lento
e me perturba um pensamento
(algo invisível invadindo
cada esquina e cada rua
e cada ponto de contato)

Os sinaleiros sem malabaristas
nem vendedores de balinhas
e o silêncio
sem motores
nem buzinas
muitas vagas pra parar
As calçadas quase às moscas
mas não sinto solidão
(alguém me espera)

Apresso o passo
olho ao redor e me examino
ao cruzar a Generoso
e temer o que não vejo
(e saber que ninguém vê
este meu périplo)

Não há ninguém
Nem mesmo as pombas
nem as putas
gigolôs
nem pedintes
traficantes
nem os guardas do palácio
nem as vozes que anunciam
almoço a seis reais

E o tamanho do vazio
me parece incalculável
quando dobro
a esquina da curvinha
sem sequer cheiro de mijo

O mercado do chinês está aberto
(eu nem sei se ele é chinês)
mas seu público é nenhum
e somente o segurança
anda fora
dos balcões
(o seu olhar desconfiado
acompanha-me de longe
afinal toda distância
há de ser mais
que ciência)

Eu compro pão
E novamente cruzo a Generoso
abro o portão da galeria
hoje mais fria e só vazia

Falo de longe com meus pais
sem dar abraços
(ai meus ais)
e deixo o pão
e me despeço
(a mãe me olhando
o olhar comprido e lacrimoso
esse também contagioso
e que contraio
e levo junto)

O tempo não se põe em quarentena
e a todos marca
um dia a mais e um dia a menos