sexta-feira, 5 de abril de 2019

Razão de arrogância

O título desta crônica pode parecer estranho, mas há razão para tudo, qualquer coisa.
Nenhuma manifestação de arrogância é arrazoada, pois a soberba é conduta típica de quem não tem o juízo no lugar, de quem não percebe que o mundo é plural, de quem não enxerga os outros e suas razões.
Os outros podem estar errados em muitas situações, mas nós também podemos estar errados em outras tantas. E é a consciência de que somos todos humanos e, portanto, todos falíveis e iguais em essência, que nos permite ser razoáveis ao fugir da arrogância.
Mas, ao que me parece, não é isto que se vê quando se analisa o grupo que conduz ideologicamente o “novo” governo. Os influenciadores ideológicos. Os que defendem as estranhas bandeiras que contestam, por exemplo, o heliocentrismo, a física quântica e, agora também, a história nacional e mundial.
Não sei que relação estas bandeiras possam ter com as propostas de “reformas” que alguns aguerridos arrogantes têm se batido em defesa. Mas desconfio que haja alguma ligação, sutil, mas real.
Por exemplo, a deformação da previdência social que o ministro da economia tanto se esforça em impor. Parece-me que a negação dos princípios da solidariedade e do mutualismo, mundialmente adotados em sistemas previdenciários, tem alguma ligação não muito bem visível com a negação da história nacional, no ponto relativo ao período da ditadura (que outro nome usar?), de 1964 a 1985.
Naquele tempo, não havia debates no congresso ou na sociedade. As decisões eram tomadas e implantadas na força da caneta (ou do canhão que ela simbolizava). Passava-se por cima das questões nacionais como um tanque de guerra passa por cima de qualquer coisa em seu caminho.
E as recentes cenas da sabatina perante a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara me deram a impressão de que o ministro se sente como se fosse um tanque de guerra. Assim: ele teve uma ideia e segue como se não houvesse outras possibilidades de se abordar o tema da previdência social, como se qualquer abordagem diferente fosse apenas um obstáculo a ser vencido por suas poderosas esteiras.
Num ato falho, ao perguntar se os deputados tinham medo de alterar as regras propostas para os militares, não sei bem se ele deixou transparecer o seu próprio medo, já que ele não enfrentou os militares quando do envio da proposta, ou se quis dizer que também os militares são apenas um pequeno e desprezível obstáculo.
A arrogância com que o ministro se comporta é, como toda arrogância, desarrazoada. Falta-lhe razão.
E falta razão, a ele e aos que com ele conduzem o plano ideológico em marcha, ao pretenderem destruir com uma canetada todas as garantias sociais duramente conquistadas por nosso povo ao longo do tempo. Isso é a negação da história, do trabalho, dos valores construídos por todos nós. Afinal, estávamos todos errados? Será que temos que ser todos internados? Só estes poucos (ainda bem!) “iluminados” é que estão certos?
Este ministro é um estereótipo do chefete que muitos já tivemos que enfrentar, aquele cara que precisa manter a fama de mau, que bate na mesa e diz: “manda quem pode e obedece quem tem juízo”.
Pois não é justamente por não ter razão que os autoritários precisam da força?
E é óbvio que há uma razão para eles serem assim. Mas isso é coisa para um psicanalista. Eu fico por aqui.

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