sábado, 21 de setembro de 2019

domingo, 15 de setembro de 2019

A floresta envenenada

Procurando saber das últimas notícias, deparei-me com a volta de uma teoria muito batida que diz que uma árvore envenenada produz apenas frutos envenenados e, em consequência, estes devem ser descartados.
É, estão falando em anular as provas de uma série de crimes cometidos contra a sociedade. Fazer de conta que nada foi provado. Fazer de conta que nada se sabe sobre os crimes e seus autores. Fazer de conta que somos severos contra quem extrapola os limites e comete crimes nefastos. Parêntesis: sendo severos apenas contra quem obteve as provas ditas “ilícitas” de crimes (não são ilícitos também?) cometidos em prejuízo seu, meu, nosso.
Enfim, fazer de conta que está tudo bem! E deixar que tudo fique bem para quem sempre esteve bem, não importa como.
E, tendo em vista a figura da árvore envenenada, resolvi afastar-me deste cenário, olhei de longe e percebi uma floresta. Sim, árvores habitam florestas! Ao menos era assim quando aprendi.
Vendo esta floresta, descobri diversos tipos de árvores, de diversos portes, com diversos tipos de folhas e, claro, produzindo diversos tipos de frutos!
Por exemplo, há aquelas que produzem os frutos da injustiça, onde os direitos de alguns valem mais do que os de outros. Há as que produzem os frutos da miséria, onde muitos são condenados a viver sem qualquer dignidade, em pena perpétua que, aliás, não poderia existir. Há também aquelas árvores que produzem os frutos da discriminação, onde quem não se encaixa em determinados padrões sofre as humilhações e violências mais estúpidas e sem sentido. Há as que produzem os frutos do autoritarismo, onde só te resta obedecer, mesmo que se trate de questões idiotas. As que produzem os frutos da ignorância, multiplicando a legião de ignorantes que, por exemplo, regam estas mesmas árvores. É uma densa floresta, e há muitos outros tipos!
Andei pela floresta e encontrei diversos frutos caídos. Vi, por exemplo, frutos que pereceram em filas de hospitais cujas verbas foram roubadas e que por isso não tiveram o socorro que lhes fora prometido. Frutos que envelheceram mal formados por escolas cujas verbas também foram roubadas e que por isso não receberam os ensinamentos que poderiam ter-lhes proporcionado uma velhice melhor. E muitos frutos assustados, com medo (ou vergonha) de ser o que são.
Então me perguntei se todas aquelas árvores que produziram esses frutos estariam também envenenadas. Quis saber que tipo de veneno teria sido lançado sobre a floresta, fazendo com que cada tipo de árvore gerasse frutos assim tão imperfeitos.
Por fim, caído em minha impotente humanidade, sob as sombras da floresta, pus-me a cogitar: quais dessas árvores devem ser derrubadas?

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

sexta-feira, 28 de junho de 2019

segunda-feira, 3 de junho de 2019

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Sintoma

Aquilo que é sentido. O que dá sinal e indica algo prestes a acontecer. O que é dito ao médico para descrever uma suspeita de doença. O antes do diagnóstico.
Há muitas definições possíveis para “sintoma”. Mas não é preciso abrir o dicionário para se saber do que se trata.
E os sintomas estão por aí. Em nós e ao nosso redor. Nas pessoas com quem conversamos. Naquelas em quem confiamos e nas que não confiamos. Os sintomas são algo tão humano quanto universal. E nós não conseguimos nos livrar deles. Podemos até achar que sim, mas sabemos que não.
Eu particularmente tenho convivido com uma sensação de mal-estar já quase antiga. Quase acostumada. Quase esquecida.
Esta sensação resolveu me acordar.
E então percebo que, na melhor das hipóteses, tudo está pior. Tão pior que não quero (não consigo) falar das coisas mais importantes. Sequer pensar nas coisas mais importantes.
Acho que é por isso que tenho pensado tanto na política, na economia, nas maluquices do poder. Na insanidade eleita para ser guia do nosso cotidiano.
Queria reformar esta condição, mas tudo o que consigo é sua deformação.
Pelo menos, se servir de consolo, dei-me conta disso.
Assim, abro esta crônica para falar de um sintoma de menor importância: a sensação de que seremos quase todos violentados por uma reforma nas nossas expectativas de envelhecimento, que já nem eram tão estimulantes!
Parece que os trovões indicam não apenas uma tempestade lá na frente, mas uma que está no nosso encalço, bafejando em nossa nuca. Pois, apesar dos discursos ufanistas, as notícias não deixam dúvida: aumenta o desemprego, aumentam os preços, há censura e déficit no comércio internacional...
Não se trata de estimativas ou projeções. Este tipo de coisa já é notícia!
E uma coisa que em outros tempos seria notícia de grande impacto, as expectativas do mercado, retratadas na pesquisa divulgada pelo Boletim Focus, do Banco Central, já não tem importância e é matéria publicada quase no rodapé do noticiário.
Por isso, falo desta pesquisa também. Afinal, esta não é uma crônica sobre coisas desimportantes?
Esta pesquisa revela, por exemplo, que as estimativas do mercado para o crescimento do PIB são decrescentes. E, outro exemplo, que as estimativas para o aumento dos preços são crescentes. E, para provar a falta de importância destes sintomas, demonstro que as tendências destas estimativas mudaram de direção a partir da divulgação da proposta de emenda constitucional de reforma da previdência elaborada pelo atual governo. Veja na figura abaixo. Os gráficos foram extraídos do Relatório Focus de 26/04/2019. As indicações dos pontos referentes à divulgação da PEC nos gráficos são intervenções deste cronista.


Mas chamo a atenção e reitero que são sintomas desimportantes. Nada disso se encaixa no discurso em vigor.
São meras especulações sintomáticas!
Talvez lastreadas em visões igualmente desimportantes, como, por exemplo, de se considerar que o que está sendo chamado de “economia” possa ser apenas um enxugamento de renda, cuja maior parcela seria destinada ao consumo. Ou então, outro exemplo, de se considerar que são medidas recessivas e que resultarão na redução da atividade econômica e agravamento da relação da Dívida Pública versus o PIB. Ou ainda, mais um exemplo, de se considerar que pode haver uma degradação das condições sociais, aumento da pobreza, da violência e da insegurança, cujas consequências refletirão em custos de serviços públicos e aumento da dívida.
Mas, claro, tudo isto é fruto de uma reflexão desimportante. De nada importa que alguns reles agentes econômicos enxerguem algo diferente do discurso oficial e estejam se antecipando às imaginadas consequências. Afinal, a reforma proposta será a redenção de todos os males e problemas da nação. Depois dela, choverá investimentos, o sofrimento será transformado em regozijo e nosso povo poderá gozar da riqueza prometida.
Acha não?

quarta-feira, 24 de abril de 2019

Estimado rombo

A corrupção provoca um rombo de R$ 200 bilhões por ano nas contas públicas. Esta é a estimativa corrente sobre o prejuízo provocado pelos corruptos do Brasil.
Ou seja, em dez anos serão R$ 2 trilhões perdidos pelo ralo instalado nos porões do aparelho onde funciona a organização criminosa que se apoderou do país.
Cá entre nós, pode ser muito mais do que isso! Esta estimativa leva em conta a taxa média de propina cobrada nos contratos investigados na operação Lava Jato, mas, se as investigações chegarem em outras áreas, suspeito que o valor final seja muito maior.
A título de exemplo, cito os valores desviados da construção e reforma de escolas no estado do Paraná, investigados na operação Quadro Negro. Há projetos onde nada foi construído ou reformado, ou seja, praticamente todo o valor foi desviado, o que equivale a uma taxa de propina de 100%!
Mas tomemos por base os R$ 200 bilhões por ano. Afinal, ser conservador está na moda.
Admitindo que “apenas” R$ 2 trilhões serão roubados dos cofres públicos nos próximos dez anos, seremos “aliviados” de um montante correspondente ao dobro da “economia” pretendida com a propagandeada reforma da previdência.
Você acha estranho? Eu não.
Não esperava outra coisa. Afinal, a sistemática eleitoral em vigor não poderia produzir outra coisa além dessas aberrações. A última reforma política não vingou, e foram mantidas as mesmas regras que favorecem a eleição e reeleição de uma maioria de oportunistas e corruptos, herdeiros de currais eleitorais e apaniguados dos “donos” de partidos. E a minoria que foge à regra não tem força para fazer mudança alguma.
O que me estranha mesmo é a falta de reação da população.
Pois é a parcela que mais paga tributos no nosso país que está sendo chamada a pagar também a conta deixada pela irresponsabilidade, pela incompetência, pela atitude criminosa dos corruptos que sangram os cofres públicos diariamente, sem vergonha e com requintes sádicos.
E a reforma política, aquela que pode mudar este estado de coisas de forma duradoura, com um sistema eleitoral que permita a eleição de gente mais séria e honesta, ajustada e efetivamente comprometida com o bem da nação, sequer é lembrada.
Ninguém fala disso. Mas somos induzidos a aprovar mais um estimado rombo em nossos “bolsos” (para não usar termos chulos, que também estão na moda), sob o pretexto de cobrir o rombo que não produzimos.
E nós sabemos o que vai acontecer daqui a mais alguns anos. O assalto aos cofres públicos vai aumentar (afinal, eles já estão dando um jeito de “estancar a sangria”, com tudo, como disse um dos corruptos gravados durante investigações) e “alguém” vai ter que pagar pela conta ainda maior. Sabe quem? Eu sei.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Senso e censura

Eu aqui, de saco cheio,
calculando a regressão...
A censura (ô termo feio!)
é cagaço de cagão!

Mais que o podre do recheio
e o mal cheiro da expressão,
a suspeita, mesmo ao meio,
encabeça a discussão.

Se na base da mordaça
o sujeito escolhe agir,
só se pensa em mais trapaça!

Este é meu entendimento,
e você há de convir
que o fedor nomeia o vento.